Eduarda decidiu ir ver o lago da casa senhorial. Não que adiantasse grande coisa. Mas daria mais veracidade às imagens que a sua mente produzira, de acordo com o relato de Amélia. Parou o carro junto ao portão que se encontrava fechado. Tocou a campainha e uma voz masculina perguntou-lhe o que pretendia. Mas não era fácil explicar. Hesitou.
- O meu nome é Eduarda. Sou fotógrafa e estou a fazer um trabalho sobre lagos. Acha que seria possível fotografar o seu?
O portão abriu-se automaticamente. Era evidente que a casa já não estava abandonada. Os jardins estavam cuidados e o caminho até à porta bem delimitado. O homem esperava-a nos degraus da entrada.
- Deixe-me vestir o casaco. Eu acompanho-a.
Foi mais fácil do que imaginara. Ele não quis saber nada sobre o seu trabalho. Não impôs quaisquer condições. Não perguntou qual o uso que seria dado às fotos, nem se o seu nome seria mencionado, ou se a casa seria identificada.
O lago era um círculo. Por isso perfeito. O raio teria uns doze ou treze metros. A circunferência de pedra que o continha, estava gravada com inscrições e desenhos relativos às estações do ano. Num ponto, tinha uma rosa-dos-ventos e no outro um relógio de Sol. Num terceiro ponto, estava uma estátua de mulher, que sentada, olhava o fundo da água. Os três, formavam um triângulo equilátero invisível. Embora apresentasse ainda uma cor esverdeada, notava-se que tinha sido limpo recentemente.
- Foi o meu bisavô que o construiu. É de uma beleza enorme, não é?
Eduarda assentiu com a cabeça.
- Acabei de o recuperar.
- Fez um trabalho notável.
Conseguia imaginar Clara a percorrer a borda do lago, com os pés nus.
- É muito mais fundo do que parece. É como uma piscina, pode nadar-se lá dentro.
- Acredito.
- E há muito tempo atrás, tinha ninfas.
Eduarda riu-se.
- Quando eu era criança, gostava de vir aqui. Talvez porque fosse proibido vir.
- Para uma criança seria perigoso.
- Sim, mas sabe como são os miúdos. Não têm noção do perigo.
- Alguns adultos também não.
- Pois. Se calhar, nunca chegam a crescer verdadeiramente.
- Síndroma Peter Pan.
- Há lugares que só se mostram, quando temos um certo grau de ingenuidade.
Eduarda achou que a conversa do homem era vagamente mística. Aliás, parecia que ela atraía esse género de pessoas e de conversas. Seria uma coincidência?
Tirou algumas fotografias. O lago era um motivo terrivelmente belo. As imagens sucediam-se em pequenos clics.
Fizeram o caminho de volta em silêncio.
- Quer entrar?
- Não vou incomoda-lo mais.
- Venha, vamos comer bolo de amora. É uma experiencia. Uma receita que acabei de criar. Sou Chef no Étoile.
- Nunca lá fui.
- Se não estivesse de serviço hoje, eu mesmo a acompanhava.
- Vejo que é afável com estranhos.
- Com estranhas.
Ao colocar o primeiro pedaço de bolo na boca, sentiu um travo de gengibre misturado com os frutos silvestres. A combinação era peculiar mas agradou-lhe.
- E então qual é o veredicto?
- Delicioso.
- É a primeira a prova-lo.
- Um privilégio, para uma mulher estranha.
- Quanto mais estranha melhor.
- Agora tenho mesmo que ir. Mais uma vez, muito obrigada pela sua disponibilidade.
- Foi um prazer. Espero que o meu bolo não tenha o mesmo efeito nos clientes, e não debandem todos.
Ela sorriu, num pedido de desculpa silencioso. Na verdade não tinha pressa, ninguém a esperava e não havia nenhum compromisso. Mas algo a levara a dizer aquilo. Algo que não sabia explicar.
Era um daqueles dias em que lhe apetecia vaguear. Foi até ao parque e sentou-se no único banco com sombra. Tirou da mala a tese do pintor. Queria devolver-lha, por isso devia lê-la quanto antes. Foi passando as folhas devagar. A arte passou a prescindir da beleza, leu. Imiscuiu-se no quotidiano, dando forma a objectos que usamos, pelo que, conceitos como funcionalidade e conforto substituíram muitas vezes a beleza enquanto necessidade humana. Talvez beleza já não signifique a mesma coisa. Conceptualmente tornou-se mais abrangente. Hoje, impera a diversidade, e por isso, há lugar para todas as visões do belo. No entanto, será fácil entender, porque para muitos, perfeição e beleza coincidem. Há algo quase sagrado nas coisas perfeitas, que as torna, de certa forma, divinas. O que faz de algo perfeito? A ausência de defeitos, ou mais do que isso? Há beleza na imperfeição? Definitivamente. Eduarda concordava com o Pintor, havia um admirável mundo, em tudo o que não era perfeito. Talvez fosse o toque das coisas singulares. Uma mistura de arte com humanidade que será sempre irresistível. A fealdade é também um elemento estético incontornável. A mistura sábia do feio com o belo, da realidade com o imaginário, sempre poderosas. As paisagens, que têm que ser mais do que paisagens e os retratos, mais do que pessoas que afinal não estão ali. A emoção deve trespassar a arte. Antigamente, fazia-o quase sempre. Algumas obras modernas contêm frieza a mais, gerando a consequente indiferença do público. Por vezes, a busca da originalidade, de algo que distinga, é um caminho que conduz à aridez. A capacidade que um artista tem, de mostrar na sua pintura, movimento, quietude, força, fragilidade, tensão ou outro qualquer conceito, e de o tornar quase real para o observador, seja na forma figurativa seja na forma abstracta, será sempre sinónimo de qualidade, e muitas vezes de beleza. A possibilidade de uma obra alterar o estado de espírito do observador e gerar emoções, contém o verdadeiro sentido artístico. Quem entende, que a obra de arte não tem que gerar reacções em quem a percepciona, está a negar a qualidade comunicadora que a arte possui. É um facto, que não é necessário que o autor considere essa reacção ao produzir a pintura, a escultura ou a música, não sendo sequer necessário que as crie para esse efeito. Porém, independentemente do sentimento, da motivação ou da visão criadora, a fruição da obra é um momento importante que contém também sensibilidade. E se não existem, no caso da pintura por exemplo, quaisquer estímulos pictóricos capazes de promover no observador uma emoção ou uma sensação, seja positiva ou negativa, estaremos perante uma apatia artística. A ausência de genuinidade, é sinónimo de falta de qualidade. Com excepção dos casos em que a própria falsidade é um componente artístico, a arte deve ser verdadeira. E o que é a verdade? Será uma exposição da alma artística. Será de alguma forma, podermos ver o avesso do criador. Às vezes num detalhe, ver a emanação do seu sentir. É a certeza, de se estar a percepcionar algo especial, criado com o lado mágico que há em nós.
Enquanto lia, tocaram campainhas na sua mente: E se a referência que o homem fizera às ninfas fosse real? Ou melhor, se as ninfas não fossem uma mera alusão mitológica? Jovens e belas mulheres ao Sol. Talvez estivesse a falar de Clara e Amélia, que costumavam frequentar a sua propriedade. Era um detalhe a esclarecer ou um pretexto para voltar?
Voltou a pousar os olhos no caderno e começou a ler sobre a premonição, ou a arte de prever acontecimentos e situações e a sua expressão na arte. Por outras palavras, a arte premonitória. O revelar do futuro, pode ser mais ou menos evidente, por vezes apenas existem na obra, indícios. Um indício será uma insinuação, uma alusão que fornece pistas mas não desvenda completamente o evento. A premonição pode apresentar a forma de ícone e utilizar linguagem simbólica. É frequente que a obra premonitória contenha índice (facto que é logo entendido e dá ao observador o conhecimento de outro que não é perceptível), ícone e símbolo. A criação de uma obra premonitória implica uma poderosa intuição e uma correspondente capacidade de visualização. Não esqueçamos que, como referia Sartre, as imagens são formas de consciência de um objecto. E que aquilo que é imaginado, tem frequentemente, uma correlação com as experiencias vividas. A arte premonitória é também um meio de exteriorizar pensamentos que obcecam, perturbam e atormentam o indivíduo. Constituem uma forma de lidar com essa invasão do seu espírito por imagens de um futuro ainda por preencher. Algumas dessas imagens pertencem a vidas passadas e são situações que irão repetir-se nesta vida, ainda que em contextos diferentes, significando que o tema não foi ainda resolvido pelo sujeito. Há quem pinte a mesma casa indefinidamente, sem que a tenha ainda visto, ou sempre a mesma pessoa, sem que a tenha ainda conhecido.
Então, o pintor acreditava na vida depois da morte. Já era mais ou menos expectável. Eduarda fez uma pausa. Sentia-se observada. Era certamente impressão sua. Embora a sensação fosse cada vez mais forte, não vislumbrava ninguém ali perto. Continuou a leitura, uma brisa ligeira afagava-lhe os cabelos. Seria uma referência quase subliminar, mas Eduarda percebeu que algumas dessas pinturas premonitórias referidas eram as do próprio autor. E se toda a sua obra representava de uma ou outra forma, a Clara, então essas premonições, teriam forçosamente que lhe dizer respeito ou estar com ela relacionadas. Seriam premonições da morte? Ou outras quaisquer?
Anotou o nome das telas, para as analisar mais tarde: “O mistério de Clara”, “Inverno” e “Acordar”. A tese poderia ajudar, na percepção da abertura da caixa fechada. A tal, que continha os símbolos. O sol estava a sumir-se e ficou desagradável. Guardou o caderno e olhou em volta. Era estranho. Mas a ideia de que alguém a olhava de um qualquer ponto voltou a insinuar-se na sua mente. Apressou o passo, e uma vez dentro do carro, sentiu-se mais segura.
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